Há algumas semanas, os meios de comunicação noticiaram o assassinato de um leão chamado Cecil, no Zimbabué, por um caçador norte-americano, que as primeiras notícias julgavam ser espanhol. Desde então, tem-se assistido a uma onda de consternação e revolta, traduzida em petições, manifestações, angariações de fundos, comentários e discursos comoventes em memória de Cecil e contra a prática da caça.
Milhares de animais selvagens, entre os quais centenas de leões, conhecem esse mesmo destino todos os anos, nomeadamente em África e sendo a maioria dos caçadores europeus e norte-americanos, pelo que é difícil apontar os motivos que levaram a que a morte de Cecil, em particular, fosse alvo de tanta atenção. Um deles poderá ser o facto de a vítima ter um nome, outro a quantidade de informação e detalhe disponíveis sobre o seu assassinato, desde o facto de o caçador ter atraído Cecil para fora da área em que era proibido caçá-lo, passando por tê-lo atingido com uma flecha e deixado a esvair-se em sangue ao longo de 40 horas, e até ao momento em que o esfolou e cortou a sua cabeça para levar como troféu. Estas são, possivelmente, práticas comuns na actividade hedionda que é a caça, mas talvez não cheguem tantas vezes ao conhecimento do grande público. No caso de Cecil chegaram – e terão contribuído para que a história corresse mundo e perdurasse nas primeiras páginas de sites e jornais ao longo de mais de um mês.
De tudo o que tem acontecido nas últimas semanas emergem duas importantes constatações. A primeira é que o mundo é capaz de se comover desta forma com a morte de um ser não-humano, que nem sequer tem connosco a relação próxima de um animal de companhia, demonstrando que temos, afinal, a compreensão intuitiva de que os animais têm direito à vida e ao bem-estar. A segunda é que muitas pessoas unidas em torno de uma causa podem mover montanhas – veja-se as várias companhias que acrescentaram agora o seu nome à lista das que se recusam a transportar troféus de caça, tornando cada vez mais difícil aos caçadores cumprir a parte final do seu ritual macabro, que consiste em exibir nas paredes de suas casas partes dos cadáveres dos animais a quem covardemente tiraram a vida. Levantarmos a nossa voz contra aquilo que está errado é fundamental não apenas por uma questão de consciência, mas também porque podemos realmente fazer a diferença.
Mas a par das manifestações de tristeza e indignação pela morte de Cecil, por parte de milhões de anónimos e figuras públicas de diversos quadrantes, surgem também invariavelmente acusações de hipocrisia a uma sociedade que chora a morte de um leão e depois senta-se à mesa para comer carne de animais igualmente capazes de sentir e sofrer.
Hipocrisia, porém, não é uma acusação justa para as pessoas que se comoveram com o assassinato do leão Cecil mas participam de outras formas de exploração animal tão ou mais cruéis e desnecessárias, como o consumo de carne. A comoção e revolta das pessoas é genuína, a empatia que sentem para com o animal é real, e isso é importantíssimo. Não há hipocrisia quando há honestidade.
O que há, no entanto, é uma inegável incoerência. Condenar o assassinato de um ser senciente pelo mero prazer (que não é uma necessidade) de o caçar e ao mesmo tempo participar deliberadamente, ainda que de forma indirecta, no assassinato de milhões de seres sencientes pelo mero prazer (que não é uma necessidade) de os comer reflecte uma visão incoerente e a aceitação dogmática de um comportamento apenas porque “sempre o fizemos” ou porque “toda a gente o faz”. É também por isto que a indignação perante a morte de Cecil é tão importante: apresenta uma oportunidade para reflectir sobre essa incoerência.
Por Cecil e por todas as outras vítimas da caça, tem sido bonito assistir à comoção do mundo. Por todas as outras vítimas de todas as outras formas de exploração animal, esperamos que todos aqueles que se preocupam genuinamente com os animais aproveitem essa oportunidade.

